tuário
que metade das senhoras da corte.
E era verdade. Renly vestia veludo verde-escuro,
com uma dúzia de veados dourados bordados no
gibão. Uma meia capa de fio de ouro estava atirada
casualmente por sobre um ombro, presa com um
broche de esmeralda.
- Há crimes piores - disse Renly com uma
gargalhada. - O modo como se traja, por exemplo.
Mindinho ignorou a piada. Observou Ned com um
sorriso nos lábios que beirava à insolência,
- Há alguns anos que tenho alimentado a esperança
de conhecê-lo, Lorde Stark. Certamente a Senhora
Stark falou de mim.
- Falou - respondeu Ned com gelo na voz. A astuta
arrogância do comentário o inflamou. - Pelo que sei,
também conheceu meu irmão Brandon.
Renly Baratheon soltou uma gargalhada. Varys
arrastou os pés para mais perto a fim de escutar.
- Bem demais - disse Mindinho. - Ainda carrego
comigo um sinal de sua estima. Brandon também lhe
falou de mim?
- Com frequência, e com algum calor - disse Ned,
esperando que a frase pusesse fim à conversa. Não
tinha paciência para aquele jogo, para aquele duelo
de palavras.
-Julgava que o calor não se coadunava com os Stark
- disse Mindinho. - Aqui no Sul, dizem que são todos
feitos de gelo, e que derretem quando viajam para
baixo do Gargalo.
- Não pretendo derreter em breve, Senhor Baelish.
Pode contar com isso - Ned dirigiu-se até a mesa do
conselho e disse: - Meistre Pycelle, confio que esteja
bem de saúde.
O Grande Meistre sorriu gentilmente no seu cadeirão
numa extremidade da mesa.
- Suficientemente bem para um homem da minha
idade, senhor - respondeu -, mas receio que me canse
facilmente - finos fios de cabelo branco rodeavam a
larga cúpula calva da testa que se erguia sobre um
rosto amável. Seu colar de meistre não era uma
simples gargantilha de metal como o que Luwin
usava, mas sim duas dúzias de pesadas correntes
entretecidas num ponderoso colar de metal que o
cobria da garganta ao peito. Os elos tinham sido
forjados de todos os metais conhecidos do homem:
ferro negro e ouro vermelho, cobre brilhante e
chumbo baço, aço e estanho, prata, latão, bronze e
platina. Granadas, ametistas e pérolas negras
adornavam o metal, e aqui e ali se via uma
esmeralda ou um rubi.
- Talvez possamos começar em breve - disse o Grande
Meistre, com as mãos entrelaçadas sobre a larga
barriga. - Temo que adormeça se esperarmos muito
mais tempo.
- Como desejar - a cadeira do rei estava vazia à
cabeceira da mesa, com o veado coroado dos
Baratheon bordado a fio de ouro nas almofadas. Ned
ocupou a cadeira ao lado, na qualidade de mão
direita do rei. - Meus senhores - disse com
formalidade -, lamento tê-los feito esperar.
- Sois a Mão do Rei - disse Varys. - Nós servimos à
vossa vontade, Lorde Stark.
Enquanto os outros ocupavam seus lugares
habituais, Eddard Stark foi atingido violentamente
pelo pensamento de o seu lugar não ser aquele,
naquela sala, com aqueles homens. Recordou o que
Robert dissera na cripta por baixo de Winterfell.
Estou rodeado de aduladores e idiotas, ele insistira. Ned
olhou a mesa do conselho e perguntou a si próprio
quais seriam os aduladores e quais os idiotas. Pensou
já sabê-lo.
- Não somos mais que cinco - Ned observou.
- Lorde Stannis viajou para Pedra do Dragão não
muito tempo depois de o rei ter partido para o Norte
- disse Varys -, e o nosso galante Sor Barristan
acompanha o rei na travessia da cidade, como é
próprio do Senhor Comandante da Guarda Real.
- Talvez devêssemos esperar que Sor Barristan e o
rei se juntassem a nós - sugeriu Ned.
Renly Baratheon riu em voz alta.
- Se esperarmos que meu irmão nos agracie com sua
real presença, poderá ser uma longa espera.
- Nosso bom Rei Robert tem muitas preocupações -
disse Varys. - Ele nos confia alguns assuntos de
menor importância para lhe aliviar o fardo.
- O que Lorde Varys quer dizer é que todas estas
conversas sobre moeda, colheitas e justiça aborrecem
meu real irmão de morte - disse Lorde Renly. - Por
isso cai sobre nós o governo do reino. Ele nos envia
uma ordem de vez em quando - retirou da manga um
papel muito bem enrolado e o pôs na mesa. - Esta
manhã ordenou-me que avançasse à coluna a toda
pressa e pedisse ao Grande Meistre Pycelle para
convocar imediatamente este conselho. Tem para nós
uma tarefa urgente.
Mindinho sorriu e entregou o papel a Ned. Trazia o
selo real. Ned quebrou a cera com o polegar e alisou
a carta para analisar a ordem urgente do rei, lendo
as palavras com descrença crescente. Não haveria
fim para a loucura de Robert? E fazer aquilo em seu
nome era pôr sal sobre a ferida.
- Que os deuses sejam bondosos - praguejou.
- O que o Senhor Eddard quer dizer - anunciou
Lorde Renly - é que Sua Graça nos dá instruções
para organizarmos um grande torneio em honra de
sua nomeação como Mão do Rei.
- Quanto? - perguntou brandamente Mindinho.
Ned leu a resposta da carta.
- Quarenta mil dragões de ouro para o campeão.
Vinte mil para o homem que ficar em segundo lugar,
outros vinte para o vencedor da luta corpo a corpo e
dez mil para o vencedor da competição de arqueiro